Por que a mesma lente funciona para uma pessoa e para outra não? O que a ciência explica
Introdução
Uma situação bastante comum acontece todos os dias nos consultórios e nas óticas.
Uma pessoa afirma:
“Essa lente foi a melhor que já usei.”
Logo depois, outra pessoa diz:
“Eu tentei usar essa mesma lente e não consegui me adaptar.”
Como isso é possível?
Se a lente é a mesma, por que os resultados podem ser tão diferentes?
A ciência mostra que a resposta está na enorme variedade de características existentes entre os usuários.
Embora duas pessoas possam utilizar exatamente a mesma lente, seus olhos raramente são iguais.
Não existem dois olhos exatamente iguais
Cada pessoa possui características próprias relacionadas à sua anatomia ocular.
Entre elas:
- Curvatura da córnea;
- Tamanho da pupila;
- Qualidade da lágrima;
- Frequência de piscadas;
- Sensibilidade ocular.
Essas diferenças influenciam diretamente a forma como a lente se comporta sobre o olho.
A lágrima tem um papel enorme
Um dos fatores mais importantes é o filme lacrimal.
A lágrima não serve apenas para lubrificar os olhos.
Ela também participa da qualidade visual e do conforto durante o uso das lentes.
Quando a lágrima é estável, a experiência tende a ser mais confortável.
Quando existem alterações na superfície ocular, a mesma lente pode apresentar desempenho completamente diferente.
O olho seco muda tudo
Pesquisadores identificaram o olho seco como uma das principais causas de desconforto em usuários de lentes de contato.
Uma pessoa com boa qualidade lacrimal pode utilizar determinada lente durante muitas horas sem dificuldades.
Outra pessoa, utilizando exatamente a mesma lente, pode apresentar:
- Ressecamento;
- Ardência;
- Visão flutuante;
- Desconforto ao final do dia.
O formato da córnea influencia a adaptação
A lente precisa se posicionar adequadamente sobre a superfície ocular.
Para isso, sua curvatura deve interagir corretamente com a córnea.
Pequenas diferenças anatômicas podem influenciar:
- Movimento da lente;
- Centralização;
- Estabilidade visual;
- Conforto.
Por isso, uma lente excelente para uma pessoa pode não apresentar o mesmo desempenho para outra.
A frequência de piscadas faz diferença
Nem todas as pessoas piscam da mesma forma.
Pesquisas mostram que usuários de computador costumam piscar menos.
Isso pode alterar a distribuição da lágrima sobre a lente e modificar a experiência de uso.
É um dos motivos pelos quais profissionais que passam muitas horas em frente às telas frequentemente apresentam necessidades específicas.
O cérebro também participa da adaptação
Muitas pessoas acreditam que a adaptação acontece apenas nos olhos.
Mas a ciência mostra que o cérebro desempenha papel fundamental.
Esse fenômeno é conhecido como neuroadaptação.
O sistema nervoso aprende gradualmente a interpretar:
- Novas informações ópticas;
- Sensações da lente;
- Alterações no foco;
- Diferentes condições visuais.
Por isso, duas pessoas podem reagir de maneira diferente à mesma lente.
Os hábitos de uso influenciam bastante
O estilo de vida também exerce grande impacto.
Por exemplo:
- Quem trabalha em ambiente climatizado;
- Quem utiliza telas o dia inteiro;
- Quem pratica esportes;
- Quem passa muitas horas ao ar livre.
Todos esses fatores podem modificar a experiência de uso.
O material da lente pode funcionar melhor para determinados perfis
Atualmente existem diversos materiais modernos, incluindo:
- Senofilcon A;
- Comfilcon A;
- Verofilcon A;
- Somofilcon A;
- Samfilcon A;
- Fanfilcon A;
- Nesofilcon A;
- Etafilcon A.
Cada material apresenta características próprias relacionadas à:
- Oxigenação;
- Hidratação;
- Molhabilidade;
- Módulo de elasticidade;
- Interação com a lágrima.
Por isso, não existe um material universalmente perfeito para todos os usuários.
As tecnologias também seguem filosofias diferentes
O mesmo acontece com tecnologias modernas como:
- HydraLuxe;
- HydraGlyde;
- Aquaform;
- SMARTSURFACE;
- WetLoc;
- MoistureSeal.
Todas foram desenvolvidas para melhorar a experiência de uso.
Entretanto, cada uma utiliza estratégias diferentes para atingir esse objetivo.
Dependendo das características individuais do usuário, algumas tecnologias podem funcionar melhor do que outras.
O que os estudos mostram?
Pesquisas sobre conforto e adaptação demonstram que o sucesso das lentes de contato depende de uma combinação de fatores.
Entre os mais importantes estão:
- Qualidade da lágrima;
- Saúde ocular;
- Material da lente;
- Ajuste adequado;
- Hábitos do usuário;
- Expectativas realistas.
Não existe um único fator responsável pelo sucesso ou pelo fracasso da adaptação.
Isso significa que existe uma “melhor lente”?
Não.
A ciência não aponta uma lente universalmente superior para todas as pessoas.
O que existe é a lente mais adequada para cada perfil de usuário.
É justamente por isso que o processo de adaptação é tão importante.
O que isso significa para quem está procurando uma lente?
Significa que recomendações de amigos e avaliações na internet podem ser úteis, mas não substituem uma adaptação individualizada.
Uma lente que transformou a experiência de outra pessoa pode não ser a melhor opção para você.
E o contrário também é verdadeiro.
Conclusão da Lentenet
A mesma lente pode produzir experiências completamente diferentes porque cada usuário possui características únicas relacionadas à anatomia ocular, qualidade da lágrima, hábitos visuais e capacidade de adaptação.
A ciência mostra que o sucesso das lentes de contato não depende apenas da tecnologia utilizada, mas da interação entre a lente e a pessoa que a utiliza.
Por isso, a melhor lente não é necessariamente a mais famosa ou a mais vendida, mas sim aquela que funciona melhor para as necessidades individuais de cada usuário.
Referência Científica
Nichols JJ.
Tear Film, Contact Lens and Patient Factors Associated with Contact Lens Success.
Investigative Ophthalmology & Visual Science.
Dumbleton K, Woods CA, Jones LW, Fonn D.
The Relationship Between Contact Lens Comfort and Long-Term Wearing Success.
Eye & Contact Lens.
American Academy of Ophthalmology – Contact Lens Adaptation and Patient Variability.
